Em um mundo cada vez mais dinâmico e complexo, acelerado pela Transformação Digital e Cultural da sociedade, as demandas da gestão também estão se transformando. Modelos tradicionais de liderança, normalmente baseados em hierarquia, comando e controle, não são capazes de lidar com as expectativas das pessoas, o contexto dos negócios e as necessidades da operação no mundo contemporâneo. Por isso, é preciso que os líderes adotem novas posturas e formas de atuação, o que é bastante desafiador. A abordagem ágil pode ser uma boa referência para essa renovação, trazendo um novo mindset e também ferramentas que ajudam a colocá-lo em prática, o que é fundamental para quem está numa jornada de mudança.
O mindset ágil e os desafios atuais da liderança
O termo “agilidade” foi lançado formalmente em 2001 com a assinatura do manifesto ágil, mas seus princípios têm origem no Lean Manufacturing (Produção Enxuta) criado pela Toyota nos anos 50 e nas ideias de Takeushi e Nonaka sobre “o novo jogo do desenvolvimento de novos produtos” em 1986. Todos esses movimentos tinham em comum uma preocupação com a entrega de valor ao cliente e com a organização do trabalho para garantir eficiência nos resultados e condições adequadas para as equipes. Essas reflexões foram se materializando em princípios e métodos que compõe o amplo conceito da Agilidade que conhecemos hoje.
Com base nessa origem, a lógica da agilidade propõe uma estrutura menos burocrática, na qual o trabalho é organizado em ciclos curtos, permitindo entregas frequentes e incrementais que facilitam a adaptação para acolher mudanças e melhorias. Além disso, a organização das equipes tende a ser multidisciplinar e menos hierarquizada, estimulando a autonomia, confiança, comunicação e colaboração.
Tudo isso está em linha com as novas demandas da liderança no contexto de transformação pelo qual estamos passando. Os ambientes de negócio são cada vez menos estáveis, exigindo que os líderes e suas equipes tenham mais capacidade de se adaptar às mudanças frequentes e rápidas de suas demandas e condições de trabalho. Por outro lado, o perfil das pessoas também mudou e precisamos buscar modelos de gestão que correspondam às novas expectativas dos profissionais e também potencializem suas contribuições e resultados. Cabe ao líder adotar uma forma de atuar que dê conta de todos esses desafios, estimulando sua equipe e criando um ambiente colaborativo, dinâmico e inovador. A cultura ágil pode ajudá-lo nisso.
A transformação ágil, de dentro para fora
Adotar métodos ágeis de gestão não torna a gestão ágil, pois agilidade não é sobre instrumentos e métodos. Ela é uma filosofia, uma forma de pensar, um conjunto de valores que orienta a forma de agir dos profissionais. Métodos ágeis implementados em equipes que não têm um mindset ágil não alcançam seus benefícios e, pelo contrário, trazem conflitos e frustrações, pois não têm coerência em seu contexto. Por isso, a proposta que fazemos aos líderes que buscam uma transformação não é chamar uma consultoria especializada e adotar os métodos ágeis amanhã, mas sim começar uma jornada de transformação ágil em si próprio. O ponto de partida dessa jornada é refletir sobre os valores da agilidade e fazer uma autoavaliação honesta sobre quais pontos já estamos prontos para adotar e quais precisaremos trabalhar para mudar. Para quem está entrando no universo da agilidade agora, essa reflexão pode parecer muito abstrata e difícil de conectar com o dia a dia. Por isso, vamos exercitá-la juntos usando um método específico, o Scrum, para trazer exemplos concretos de como os princípios da agilidade se expressam nas práticas e porque o líder precisa pensar na transformação dessa essência antes de adotar as ferramentas.
O que podemos aprender com a essência do Scrum
Uma dos métodos ágeis mais conhecidos, o Scrum propõe uma abordagem adaptativa para a solução de problemas complexos. Ele ficou popular na gestão de projetos de tecnologia, pois trouxe uma alternativa aos modelos tradicionais que não estavam se afinando com as demandas de empreitadas mais inovadoras, os contextos cada vez mais dinâmicos e o novo perfil das equipes. Da TI para o mundo, hoje ele é utilizado nas mais diversas áreas.
No Scrum, o projeto é dividido em ciclos de entregas denominados Sprints, que duram até quatro semanas, normalmente. Todas as atividades e entregas do projeto são colocadas em uma lista chamada Product Backlog. Antes de cada Sprint, a equipe do projeto revisa as atividades remanescentes no Product Backlog e os resultados e aprendizados da sprint anterior, discutindo ajustes nas entregas da lista e elegendo os itens prioritários que serão endereçados na próxima Sprint. É por isso que o Scrum é considerado um método adaptativo. Ao prever uma análise dos planos e aprendizados a cada ciclo de entregas, ele abre um espaço para adaptar as soluções de acordo com os resultados obtidos, as experiências da equipe e do cliente e a quaisquer novas condições que surjam no cenário.

Para que esse processo adaptativo ocorra de fato, o Scrum propõe 5 valores fundamentais: coragem, foco, comprometimento, respeito e abertura. Tais valores ajudam a criar um ambiente de confiança na equipe, oferecendo uma base sólida sobre a qual os pilares da transparência, inspeção e adaptação podem operar. São esses pilares que sustentam as práticas do Scrum. Por exemplo, se conduzidos de forma transparente, a revisão de resultados e ocorrências de uma Sprint (inspeção) pode gerar aprendizados e direcionar ajustes do backlog (adaptação).
Na ausência dos valores fundamentais, os pilares não se firmam e as práticas se tornam rituais vazios “para cumprir tabela”. Nos encontros de revisão, o pilar da inspeção pode deixar de ser coletivo e confundir-se com controle e micro-gestão. Isso cria um ambiente em que os eventos, fatos e resultados não são apresentados com transparência, as discussões são rasas e enviesadas, limitando as possibilidades de aprendizado e adaptação.
Por isso, mais do que adotar o método, é fundamental que as equipes acolham os valores do Scrum em seu dia a dia. A reflexão sobre como seu estilo de liderança está alinhado a esses valores pode ser um exercício extremamente eficaz para líderes que estão buscando transformar sua abordagem. Caso se sinta pronto para experimentar, adotar o Scrum em um projeto específico pode ser um excelente exercício. Melhor ainda se compartilhar com a equipe os objetivos dessa experimentação e abrir um canal de diálogo para falar sobre os aprendizados dessa jornada.
Liderar a transformação de si
Novos tempos exigem novos modelos de liderança e gestão adequados aos desafios dos negócios e ao novo perfil humano das organizações. Muitos líderes estão diante do desafio de conduzir a transformação na empresa ao mesmo tempo que trabalham na transformação de si e de sua forma de liderar. Tal empreitada não é nada fácil, mas pode ser uma oportunidade ímpar de autoconhecimento e evolução pessoal e profissional. Referências concretas para nossas reflexões e caminhos práticos para a experimentação de pequenas mudanças de postura e atuação são boas alternativas para sairmos do discurso e partirmos para a ação. Os valores, pilares e instrumentos que sustentam os métodos ágeis podem ser úteis nessa jornada. Ao conhecer o que está no coração da agilidade, caberá a cada líder compreender o que também chega ao seu coração e escolher as práticas que fazem sentido para si.
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